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domingo, 25 de novembro de 2012

Criação 7 - O Mal de Knoplish


Comecei a escrever Intervalo como se estivesse no 78o. capítulo da novela fictícia "Vidas Sem Rumo". Não nenhuma explicação sobre o que aconteceu antes da história iniciar. Os personagens entraram e foram interagindo, e assim nascem os detalhes que parecem sido tão planejados antes. É um clichê da damaturgia, mas pura verdade: personagens criam vida própria e passam a orientar o autor.

Dona Florinda - muito inspirada na minha avó Consuelo, com sua dramaticidade exagerada e bordões como "a que ponto chegaste!" Sofre o terrível e fictício "mal de Knoplish", que leva o nome de um antigo médico ortopedista.

Mariana - filha de Florinda, é a bobinha e sonhadora que sofre a novela inteira mas tem a promessa de se casar com o galã no final.

Roberta - a filha "má" de Florinda é vulgar, agressiva, bagaceira, barraqueira e só quer roubar o noivo da irmã. 

Leonardo - trabalha como um escravo no escritório do doutor Teixeira. Procura sempre ganhar mais para poder dar conforto à noiva Mariana. Dois fatos o perturbam: 1) o escritório, antes tão cheio de gente, está vazio e 2) por mais que tente, ele não consegue sair.

Bob - o colega e amigo de Leonardo, é apaixonado por Roberta. Começa a repetir suas falas sem parar, e esse é um dos mistérios da peça.

Michel - o  personagem-coringa da peça. "Reencarna" na novela muitos capítulos depois de ter morrido. Trás uma sutil mensagem de evolução espiritual.

A seguir: o celular toca em Monte Verde

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Criação 6 - As peças se encaixam



Em algum momento fiquei imaginando o que os personagens de uma novela fariam durante um intervalo. Todo munto conhece o mecanismo. Um personagem faz alguma revelação chocante. "Eu sei quem matou seu pai!" Sobe música tensa. Os personagens se olham, calados. Entra o intervalo. Quando acaba o break, volta a cena, os personagens saem do estupor e falam sem parar. Até o próximo intervalo.

Eu decidi que durante o intervalo os personagens ficariam mudos, esperando pacientemente a hora de voltar a falar e agir. Suspenderiam a realidade por minutos. Descansariam da rotina infernal de personagens de um novelão tipo mexicano, onde tudo é conflito, inveja, vingança e frustração.  E fariam isso por não conhecer outra opção. 

Criei então o que se costuma chamar de "plot point" - um acontecimento marcante que muda o destino dos personagens. Fiz com que num dos intervalos surgisse a aparição do seu Michel, o falecido marido de Florinda e pai de Roberta e Mariana. Ele revelaria a todos as verdades desconhecidas sobre o universo das telenovelas. A partir daí haveria uma corrida para a libertação daquele suplício diário num recanto confortável na memória coletiva.

Eu já tinha os personagens. E um rumo a seguir. Comecei a escrever Intervalo no dia em que completei  51 anos. E me dei 30 dias para completar a peça.

A seguir: O Mal de Knoplish

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Criação 5 - 5 personagens em busca de uma história


Desde o começo decidi que Intervalo seria uma peça sobre personagens, e não sobre os bastidores de uma TV. Os personagens viveriam naquele universo fechado de um novelão mexicano, e não conheceriam nada da vida "lá fora".  (Mais tarde o diretor Ricardo Pinto e Silva me lembrou da coincidência temática entre Intervalo e peça clássica de Luigi Pirandello, Seis Personagens em Busca de um Autor. Fiquei lisonjeado pela lembrança. Mas não vou mentir: Seis Personagens - que eu nunca assisti - não passou pela minha cabeça durante a criação de Intervalo).

Tinha chegado a hora de povoar a peça. Eu precisava de personagens de uma novela ruim, completamente baseados em clichês. Pensei num trio básico: uma mãe viúva (Dona Florinda) com duas filhas, uma boa (Mariana) e uma má (Roberta). Depois veio o noivo-herói (Leonardo) da filha boa, cobiçado pela má. Eu já tinha um conflito básico tipico de novela. Resolvi que a peça precisava de um "alívio cômico", e inventei um amigo do noivo, o apalermado Bob.  Havia ainda o Doutor Teixeira, chefe de Leonardo, que sumiu logo nas primeiras versões.

Pronto. Eu já tinha um universo com uma mecânica própria (a telenovela) e cinco personagens esboçados. O próximo passo seria brincar mentalmente com esses seres imaginários. Procurar a liga para todos esses elementos. O mecanismo que levaria à criação de uma história propriamente dita. Os famosos começo, meio e fim.

A seguir: as peças se encaixam