segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Intervalo Parte 1 - A Perfidia de Roberta



Intervalo
Comédia para seis atores
Por Dagomir Marquezi



1º Lugar no Prêmio Funarte de Dramaturgia 2004
(Teatro Adulto – Região Sudeste)



PERSONAGENS:
Leonardo – noivo de Mariana
Mariana – filha de Florinda
Roberta – irmã de Mariana
Florinda – mãe de Mariana e Roberta
Bob – colega de Leonardo
Michel – esposo de Florinda, pai de Mariana e Roberta

(Tudo escuro. Entra tema instrumental da novela “Vidas Sem Rumo” junto com a voz OFF do LOCUTOR)

LOCUTOR
Voltamos a apresentar “Vidas Sem Rumo”. Um oferecimento de Bierskull, a cerveja de quem sabe viver. Salsichas Saúde. Falou salsicha? Falou Saúde. E refrigeradores FreezePlus. O seu jeito de refrescar.

(As luzes se acendem na SALA DE MARIANA, um dos cenários da novela. Estão em cena a heroína MARIANA e sua irmã, ROBERTA. Mariana vestida discretamente. Roberta quer parecer mais sexy, mas a diferença de estilo entre as duas ainda não é tão evidente).

ROBERTA
Não pode ser, Mariana! Você está me dizendo que Bob e Natasha marcaram casamento com apenas um mês de namoro?! Mas isso é... loucura!

MARIANA
Exatamente, Roberta. Leonardo é amigo de Bob. Meu noivo vai tentar dar uns conselhos ao rapaz. Casar com um mês de namoro é precipitação demais. Nenhum casal pode ter certeza dos seus sentimentos em tão pouco tempo.

ROBERTA
Um mês. Isso não te parece suspeito, maninha? Será que Bob... vai ser papai? Os pais de Natasha pertencem a uma família bem tradicional. Tenho certeza que eles forçariam esse casamento se soubessem que a filha estava grávida.

MARIANA
Pode ser uma maneira de consertar um acidente, Roberta. Mas pode ser simplesmente uma paixão avassaladora. Eu acredito em amor à primeira vista. Foi por amor à primeira vista que eu me apaixonei por Leonardo.

ROBERTA
Mariana, você já me disse isso umas doze mil vezes. Só hoje. Você pode acreditar no que quiser, maninha. Mas o fato é que o casamento do Bob e Natasha está saindo em um mês. O seu está sendo adiado há quatro anos.

MARIANA
O que prova de que meu amor por Leonardo é sólido e responsável.

ROBERTA
Ou prova de que o noivinho Leonardo anda com sérias dúvidas ...

MARIANA
Não seja invejosa, minha irmã. Tente aceitar a sua vida como ela é, e não queira destruir a dos outros. Não tenho culpa se você não consegue atrair um amor sincero, mas apenas casos passageiros. Agora se você me dá licença, estou atrasada. Hoje tenho plantão no Orfanato Excluídos de Jesus. Se Leonardo aparecer, diz que estou livre para nosso jantarzinho íntimo de hoje.

ROBERTA
Pode deixar, maninha. Eu digo a ele sim... 

(Sorridente, Mariana sai. Roberta faz cara de má).

ROBERTA
Mas não vai ser exatamente este o recado que eu vou passar ao seu querido noivinho, maninha...

(A seguir: Bob confessa seu verdadeiro amor)

A palavra do autor: 
Eu decidi começar Intervalo de um lugar qualquer. Digamos que o terceiro bloco do capítulo 127 da novela Vidas Sem Rumo. É a sensação que temos ao pegar uma novela no meio do caminho: vemos personagens que não conhecemos falando de assuntos sobre os quais estamos por fora. Mas as novelas são construídas sobre clichês sólidos. Logo podemos identificar e nos envolver com os conflitos dos personagens, sejam quais forem. Comecei com as irmãs Mariana (a boa) e Roberta (a má). Elas falam sobre o próximo casamento de Bob (um personagem secundário, o "comic relief" da novela). Mas essa conversa é pretexto para Roberta soltar seu veneno: ela insinua que Leonardo, o noivo de Mariana, está adiando o casamento por estar em dúvidas sobre seus sentimentos. A última frase "promove" Roberta de simples irmã invejosa a principal vilã da novela. 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Produção 4 - Gianne, a perfeita Mariana

Gianne Albertoni

Em 2009 eu escrevi a adaptação da peça Carro de Paulista para telefilme na TV Cultura. No elenco do filme estava Gianne Albertoni. O diretor Ricardo Pinto e Silva ofereceu para ela uma cópia de Intervalo. Gianne topou na hora. Era um casting perfeito para Mariana.

A produção executiva da peça ficou com Sergio Gorbetti e Tárik Puggina.  Eu corrigi alguns problemas do texto original. Foi um novo impulso para a montagem de Intervalo, que continua em busca de recursos e patrocínio. 

Enquanto não chega aos palcos, outros planos estão sendo concretizados. Entre eles, a publicação do texto premiado pela Funarte em capítulos, aqui neste blog.

Para assistir o trailer de Carro de Paulista, clique aqui.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Produção 3 - Intervalo no palco por uma noite


Em 2007 Intervalo foi selecionado para uma leitura pública no projeto Letras em Cena. Este é um programa cultural produzido por Marina Mesquita e Clovys Torres que acontece todas as segundas feiras no auditório do MASP, em São Paulo.

Graças ao diretor Ricardo Pinto e Silva, a leitura contou com um excelente elenco: Otavio Martins (Leonardo), Kiara Sasso (Mariana), Eugenia Di Domenico (Florinda), Maira Chasseroux (Roberta), Isser Korik (Bob) e Roney Facchini (Michel). Rogério Naccache produziu a trilha sonora. O talento dos atores fez com que o público se esquecesse que aquela era apenas uma leitura, sem nenhum ensaio prévio. 


Este é um clipe da leitura realizada em 20 de agosto de 2007:




quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Produção 2 - Intervalo no cinema


Quando Intervalo ganhou seu premio na Funarte, eu estava iniciando um projeto com o cineasta Ricardo Pinto e Silva: a adaptação de um romance de Regina Rheda, que acabou não decolando.

O Ricardo então me convidou a trabalhar no roteiro do longa Dores & Amores (produção luso-brasileira, baseado em romance de Claudia Tajes). E teve a ideia de filmar trechos de Intervalo como se fosse uma novela que os personagens de Dores & Amores assistiriam em suas TVs. A abertura do filme acabou sendo uma cena da peça. O roteiro final foi assinado por Patricia Müller, Ricardo Pinto e Silva e por mim. Kiara Sasso, a protagonista de Dores & Amores, cruzaria o caminho de Intervalo mais uma vez. 

Dores & Amores foi uma das 5 selecionadas para se apresentar no Festival de Cinema de Paulínia de 2010. Ainda não foi distribuído comercialmente. Para ler o roteiro de Dores & Amores (incluindo trechos de Intervalo) clique neste link.

A seguir: Intervalo chega ao palco - por uma noite


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Produção 1 - O celular toca em Monte Verde


Na metade de abril de 2004 Intervalo estava pronto. Era uma peça pronta para ser encenada. Alguns meses depois eu o inscrevi no Concurso Funarte de Dramaturgia. E meio que esqueci do assunto. Sei como esses concursos são concorridos.

Em novembro eu estava num período especialmente cansativo na editora Abril e consegui uma semana de folga numa estalagem de Monte Verde, sul de Minas. No dia 10 de novembro fazia minha caminhada por um bosque do estabelecimento quando o celular tocou. Era Elizabeth Fernandes, secretária da Funarte com a excelente notícia: Intervalo tinha ganho o primeiro lugar do Concurso de Dramaturgia na categoria maie disputada: teatro adulto, região Sudeste.

Com o premio veio um cheque de 15 mil reais e o direito a ter a peça publicada numa coletânea com todos os vencedores.  O livro foi distribuído nacionalmente pela rede do Ministério da Cultura. (Havia também a promessa de leituras dramáticas em vários pontos do país, mas isso que eu saiba não aconteceu). 

Consegui reconhecimento do mais importante premio de dramaturgia do pais para uma peça de apelo popular. Tinha no premio o aval do presidente da República (Luís Inácio Lula da Silva), do ministro da Cultura (Gilberto Gil) e do presidente da FUNARTE (Antonio Carlos Grassi) e de um juri de professores de teatro, dramaturgos, técnicos, especialistas, diretores, críticos.

O que poderia dar errado?

A seguir: Intervalo chega ao palco - por uma noite

domingo, 25 de novembro de 2012

Criação 7 - O Mal de Knoplish


Comecei a escrever Intervalo como se estivesse no 78o. capítulo da novela fictícia "Vidas Sem Rumo". Não nenhuma explicação sobre o que aconteceu antes da história iniciar. Os personagens entraram e foram interagindo, e assim nascem os detalhes que parecem sido tão planejados antes. É um clichê da damaturgia, mas pura verdade: personagens criam vida própria e passam a orientar o autor.

Dona Florinda - muito inspirada na minha avó Consuelo, com sua dramaticidade exagerada e bordões como "a que ponto chegaste!" Sofre o terrível e fictício "mal de Knoplish", que leva o nome de um antigo médico ortopedista.

Mariana - filha de Florinda, é a bobinha e sonhadora que sofre a novela inteira mas tem a promessa de se casar com o galã no final.

Roberta - a filha "má" de Florinda é vulgar, agressiva, bagaceira, barraqueira e só quer roubar o noivo da irmã. 

Leonardo - trabalha como um escravo no escritório do doutor Teixeira. Procura sempre ganhar mais para poder dar conforto à noiva Mariana. Dois fatos o perturbam: 1) o escritório, antes tão cheio de gente, está vazio e 2) por mais que tente, ele não consegue sair.

Bob - o colega e amigo de Leonardo, é apaixonado por Roberta. Começa a repetir suas falas sem parar, e esse é um dos mistérios da peça.

Michel - o  personagem-coringa da peça. "Reencarna" na novela muitos capítulos depois de ter morrido. Trás uma sutil mensagem de evolução espiritual.

A seguir: o celular toca em Monte Verde

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Criação 6 - As peças se encaixam



Em algum momento fiquei imaginando o que os personagens de uma novela fariam durante um intervalo. Todo munto conhece o mecanismo. Um personagem faz alguma revelação chocante. "Eu sei quem matou seu pai!" Sobe música tensa. Os personagens se olham, calados. Entra o intervalo. Quando acaba o break, volta a cena, os personagens saem do estupor e falam sem parar. Até o próximo intervalo.

Eu decidi que durante o intervalo os personagens ficariam mudos, esperando pacientemente a hora de voltar a falar e agir. Suspenderiam a realidade por minutos. Descansariam da rotina infernal de personagens de um novelão tipo mexicano, onde tudo é conflito, inveja, vingança e frustração.  E fariam isso por não conhecer outra opção. 

Criei então o que se costuma chamar de "plot point" - um acontecimento marcante que muda o destino dos personagens. Fiz com que num dos intervalos surgisse a aparição do seu Michel, o falecido marido de Florinda e pai de Roberta e Mariana. Ele revelaria a todos as verdades desconhecidas sobre o universo das telenovelas. A partir daí haveria uma corrida para a libertação daquele suplício diário num recanto confortável na memória coletiva.

Eu já tinha os personagens. E um rumo a seguir. Comecei a escrever Intervalo no dia em que completei  51 anos. E me dei 30 dias para completar a peça.

A seguir: O Mal de Knoplish